Post: Projeto de poços na África avança sobre regiões remotas e já atende mais de 5 mil pessoas

Ao abrir o chuveiro pela primeira vez, Makari se assustou. Por um instante, pensou que o teto estava cedendo, como se chovesse dentro de casa. Aos 20 anos, nunca tinha visto uma ducha em funcionamento.

Na Guiné-Bissau, Ayana reagiu em silêncio: fechou os olhos e orou ao ver um poço ser inaugurado perto de casa. Foram 17 anos esperando por água potável sem precisar caminhar quilômetros todos os dias.

Makari e Ayana são nomes fictícios; as histórias que vivenciaram, não.

Em parte da África, a falta de água tratada ainda define a rotina. Não é apenas uma questão de sede. Afeta a saúde, o tempo, o trabalho e impõe limites invisíveis à vida cotidiana. Em muitos casos, mata de forma indireta.

Foi nesse contexto que o grupo Legendários lançou o projeto Aguáfrica. A proposta é construir 100 poços artesianos até o fim de 2026 e levar água potável a cerca de 25 mil pessoas que vivem em regiões remotas.

Como o projeto começou

Em novembro de 2025, o fundador dos Legendários, Chepe Tupzu, participou de uma trilha em uma região isolada de Angola. Durante o percurso, ficou por cerca de 30 segundos imerso na água barrenta consumida pelos moradores locais.

A experiência marcou o início do projeto.

“Ele entendeu aquela experiência como um chamado de Cristo para fazer alguma coisa”, afirma José Rivera, vice-presidente de Marketing e Comunicação do grupo.

A partir dali, a iniciativa foi estruturada com um objetivo claro e prazo curto: cavar 100 poços em regiões remotas da África e ampliar o acesso à água potável em áreas de difícil alcance.

Poço inaugurado no Deserto do Saara. Imagem: Legendários.

Mais grave do que a sede

Hoje, uma em cada três pessoas no mundo não têm acesso à água potável. Segundo a  Organização Mundial da Saúde, esse total soma 2,2 bilhões de pessoas no mundo sem  acesso à água potável segura. No caso do saneamento básico, o déficit é ainda maior: 3,4 bilhões não têm acesso a serviços adequados.

Os efeitos são diretos e graves. A falta de água limpa está entre as principais causas da disseminação de doenças como diarreia, cólera e hepatite A, que ainda provocam mortes diariamente, sobretudo entre crianças. Estimativas da Unesco indicam que essas doenças causam a morte de cerca de 800 crianças por dia, mais de 40% delas na África.

Impactos vão além da saúde

Em muitas comunidades, mulheres e crianças caminham horas por dia para buscar água. O tempo gasto reduz a frequência escolar, limita o trabalho e compromete o desenvolvimento local. Em países de baixa renda, cerca de 80% dos empregos dependem diretamente da disponibilidade de água.

A escassez também pressiona comunidades inteiras: pode provocar deslocamentos, aumentar tensões sociais e dificultar o crescimento econômico, um efeito em cadeia que começa na ausência de um recurso básico.

Chegar onde ninguém chega

É justamente nesse ponto que o projeto tenta atuar.

“Interfere na gestão do tempo das famílias. Em regiões sem água limpa, mulheres e crianças caminham horas para acessá-la. Isso prejudica os estudos das crianças e o trabalho das mulheres e mães”, afirma a organizadora do projeto, Stephanie.

Segundo ela, a estratégia foi alcançar áreas de difícil acesso, devido às longas distâncias e qualidade das estradas?

“Algumas pessoas famosas, como o youtuber Mr. Beast, já realizavam projetos parecidos, mas nós optamos por chegar a regiões ainda mais remotas para atingir um recorte populacional de quem realmente não tinha acesso”, afirma.

Poço inaugurado pelo projeto Aguáfrica. Imagem: Legendários.

Como o projeto ocorre

Os Legendários planejam e contratam a execução do projeto, mantido por voluntários. Cada poço custa cerca de US$ 17 mil (R$ 85 mil) e inclui todas as etapas: estudo do terreno, logística em áreas remotas, materiais, licenças e perfuração. As estruturas têm tanques de 1 mil a 2 mil litros por dia e plataforma metálica, garantindo segurança e durabilidade.

Stephanie ressalta que os doadores recebem toda a prestação de contas referente à utilização dos recursos. “Incluímos fotos, vídeos e documentação completa”, afirma.

Além disso, eles prezam pela contratação de locais, gerando oportunidades temporárias de emprego.

Moradores são capacitados a usar os poços de modo eficiente

Uma das críticas recorrentes à escavação de poços artesianos é a falta de preparo das comunidades para operar e manter os sistemas ao longo do tempo. O problema não é pontual: estudos de organizações como o World Bank e a UNICEF indicam que, em alguns países africanos, até 30% a 40% dos pontos de água deixam de funcionar por falta de manutenção.

Para evitar esse cenário, os Legendários capacitam os moradores locais são treinados para operar e manter os sistemas, além de receber orientações para evitar o desperdício. Stephanie destaca que o acompanhamento é contínuo: “nas formações, as comunidades também são orientadas a evitar o desperdício. Além disso, em cada local que recebe os poços, há um missionário que evangeliza e verifica se o funcionamento está adequado”.

Cada poço deve servir à comunidade por um período estimado de 20 a 30 anos.

Na inauguração, Rivera ressalta que as entregas são feitas em nome do Legendário número 1, Jesus Cristo. Segundo ele, ao fundar o projeto, o líder do grupo afirmou que Deus chama cada pessoa a olhar para a humanidade. “O fundador destacou a importância da filantropia e reforçou que não podemos ser indiferentes às necessidades dos mais vulneráveis”, afirma Rivera.

“Não é possível ajudar a todos, mas é possível ajudar a alguns”, ressalta.

No momento, os Legendários buscam ir além da meta estabelecida.

“Trabalhamos para entregar não 100, mas 101 poços, ir além. A partir disso, faremos os próximos planos”, afirma.

Se der certo, o projeto não levará apenas água às comunidades, mas também vida, dignidade e esperança.

Fonte: Noticias

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